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Social em Movimentos

Social em Movimentos 2009

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Social em Movimentos na Folha de São Paulo | 22/04/2009

Social em Movimentos na Folha Ilustrada

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Entrevista com Paula Zanettini

Do lado de foraComo surgiu a idéia de Do lado de fora?

Durante uma pesquisa para um outro projeto (que na verdade não era nem sobre este tema, mas a respeito de condenados que continuam presos após o cumprimento da pena), eu tomei contato com este universo e fiquei realmente impressionada com a dura realidade dessas mulheres. Conversando com a Monica Marques [co-diretora], que tem muita experiência em reportagem nesta área jurídica, resolvemos desenvolver o projeto juntas e inscrevê-lo na seleção do DOCTV.

Como foram as filmagens?

Desde o início você já tinha uma idéia do que queria fazer ou o filme foi tomando forma durante a colhida de depoimentos? Tínhamos apenas um roteiro indicativo. No início pensávamos em usar outros recursos, como a dramatização de algumas situações, por exemplo, mas assim que começamos as entrevistas resolvemos abrir mão disso e concentrar a atenção basicamente nos depoimentos, que eram de uma riqueza infinitamente maior do que aquilo que tínhamos imaginado de início.

Como foi sua relação com as visitantes e suas famílias? Havia desconfiança no início, a aproximação foi difícil?

A aproximação de início foi muito difícil sim. E deixá-las a vontade para abrir o coração talvez tenha sido o nosso grande desfio. E acho importante destacar a participação da Adriana Cruz, nossa pesquisadora, que fez um trabalho incrível neste sentido. Entrevistamos mulheres muito conscientes do seu papel na sociedade e dos seus direitos, que sabem que sua dignidade não é afetada por um ato cometido por outra pessoa, no caso o filho ou marido. Um destes exemplo é a Simone, que tem um projeto maravilhoso de conscientização e apoio às famílias dos presos. Mas infelizmente a maioria não é assim. Elas em geral carregam o estigma de mulher de bandido e sentem muita vergonha. A maioria não quer nem mostrar o rosto, muito menos falar e a gente apresenta isso no filme.

Até que ponto o documentarista pode ou deve se envolver com as pessoas que contam sua história?

Essa questão do envolvimento é sem dúvida o grande dilema do documentarista.Na minha opinião a imparcialidade total é um mito. A partir do momento que uma determinada situação te toca e você resolve contar aquela história, você já está se envolvendo de alguma forma. Até porque o filme não é uma reportagem jornalística pretensamente isenta. É o seu olhar sobre alguma coisa. Por outro lado, você precisa ter um mínimo de senso crítico e distanciamento para que consiga fazer o seu trabalho. Pricipalmente porque se o seu personagem formar uma percepção de que você comprou a briga dele, ele vai começar a falar apenas aquilo que ele acha que você quer ouvir.

De que maneira o documentário pode interferir e modificar esta realidade?

É impossível não interferir. No momento que você liga uma câmera, você muda uma realidade. Uma das nossas personagens ao longo do filme começou a aparecer cada dia mais produzida , porque sabia que acompanharíamos todos o movimento dela durante a preparação para a visita. No final ela já estava popularíssima na entrada de Bangu e era chamada de “celebridade” pelas outras. Quanto a modificar a realidade, acho que o filme teve o grande mérito de fazê-las pensar sobre a situação em que se encontravam.

Vocês acompanham o que aconteceu com as mulheres com quem conversaram? Ainda tem contato com alguma?

Logo que o filme foi exibido pela primeira vez, a gente quis saber de que forma havia repercutido entre elas e inclusive fizemos algumas exibições dentro dos presídios, com a presença dos parentes e dos próprios presos. Com o tempo, como é natural, o nosso contato foi diminuindo. Mas tivemos vários relatos de mulheres que melhoraram a auto-estima após participar do filme. – De que maneira o debate e a crítica atuam na hora de se pensar e planejar um outro filme? Considero fundamentais para amadurecer o olhar. Até porque uma visão externa sempre tende a ser mais crítica e menos condescendente com algumas coisas, que você às vezes acaba deixando passar. Este foi o nosso primeiro filme, tanto meu como da Monica. Muitas das coisas que fizemos foram na base da intuição. Na hora de optar por este ou aquele caminho, a gente não tinha uma referência de experiência anterior para comparar. Por exemplo: uma das nossas opções foi colher todos os depoimentos durante as ações, em vez de gravar uma entrevista e um monte de takes de cobertura separados. A gente gostou muito do resultado, apesar de ter dado um trabalho danado para editar. E no final, isso foi apontado como a grande riqueza formal do filme, em todos os debates que fizemos.

Quais são seus próximos projetos, em desenvolvimento ou aqueles que sonham fazer?

Tenho várias idéias na cabeça, algumas no papel, mas nenhuma em desenvolvimento ainda.

Entrevista com Henri Gervaiseau

Moro na TiradentesComo surgiu a idéia de Moro na Tiradentes ?

A partir de uma pesquisa antropológica desenvolvida no local pelo antropólogo Tiaraju d´Andréia.

O nosso documentário é uma produção do núcleo audiovisual do Centro de Estudos da Metrópole (ou CEM-Audiovisual), cuja proposta é de produzir documentários capazes de, a partir do diálogo com os pesquisadores do Centro, conceber a melhor forma de retomar o caminho de uma pesquisa feita sobre certo tema em outra linguagem e forma de comunicação, compondo um discurso em parte apoiado nos resultados produzidos, em parte autônomo e, ele mesmo, capaz de gerar dados novos e de oferecer outros ângulos de percepção da experiência não revelados pelos indicadores sociais ou pela pesquisa acadêmica.

Moro na Tiradentes explora diferentes formas de abordagem da experiência de morar em um dos maiores conjuntos habitacionais brasileiros, situado em Cidade Tiradentes, um sub-distrito pobre e segregado no extremo leste da cidade de São Paulo.

Como nossas outras produções, essa também tem caráter de pesquisa de linguagem e de busca de diálogo original com as pesquisas do CEM -de cunho antropológico e sociológico-, em curso na região. Cabe ressaltar que neste caso, a realização do filme interagiu de forma mais direta, do que nas experiências anteriores, com o próprio andamento da pesquisa de Tiarajú Pablo d´Andrea

Esse é o primeiro filme de uma trilogia que preparamos sobre Cidade Tiradentes tendo como foco central à experiência da moradia, cada qual com um ângulo de percepção distinto face à experiência social em pauta. O segundo, já em produção, explora diferentes formas da experiência de se preparar para morar em Cidade Tiradentes. Experiência vivida pelos integrantes do mutirão autogerido Paulo Freire, que está finalizando a construção de um prédio no bairro, onde 100 famílias de mutirantes irão morar, entre o final de 2008 e o final de 2009. O terceiro explora diferentes formas da experiência de morar em favelas e invasões em Cidade Tiradentes, ou seja, na maior parte das vezes, em loteamentos irregulares e ilegais.

Pareceu-me fundamental poder aprofundar a exploração de um único território no curso de um período de tempo extenso, não apenas para propiciar uma maior aproximação dos personagens e dos seus contextos de vida, mas ainda, sempre que possível, para poder observar a evolução das suas trajetórias existenciais, em diferentes momentos a serem registrados.

A escolha de Cidade Tiradentes foi determinada, em ultima instância, por um interesse em aproximar-se de uma experiência urbana diferenciada no quadro das metrópoles brasileiras, no entendimento comum do que seja viver na periferia. Se excetuarmos o campo acadêmico, particularmente paulista, em que a heterogeneidade das situações de pobreza tem sido, de modo recorrente, objeto de estudos e debate, associa-se ainda, de modo freqüente, no Brasil, pobreza às favelas.

Neste contexto, o bairro de Cidade Tiradentes configura, como bem salientou Gilberto Stam, ao mesmo tempo uma exceção e um enigma. Exceção porque é um bairro quase que totalmente planejado, no inicio, pelo poder publico; e enigma porque é uma das áreas menos conhecidas de São Paulo, apesar do estigma que, erroneamente, a caracteriza como uma das mais violentas da periferia. Este bairro foi planejado, no final dos anos 70, para abrigar um dos maiores complexos habitacionais da América Latina, quando este modelo de cidade dormitório sem infra-estrutura urbana adequada, já havia sido condenado internacionalmente. Cidade Tiradentes atraiu, a partir da década de 80, milhares de pessoas que, atrás do sonho da casa própria, aceitaram se mudar para uma área distante do município de São Paulo, situada a trinta e cinco quilômetros do centro da cidade.

A questão da moradia foi escolhida como tema central dessa série de documentários por um conjunto de razões. Como a própria criação do bairro pelo poder público correspondeu a uma tentativa de resposta – resposta limitada pelas circunstâncias, ideologias, modelos em voga etc. – ao déficit de moradia na cidade de São Paulo, sabíamos de saída que este aspecto seria central. Era também um dos aspectos fundamentais da pesquisa do Tiaraju d´Andréia, de modo que – desde os relatórios do pesquisador – nos acercamos desta temática quase naturalmente. As diferentes modalidades do “morar” na Cidade Tiradentes (em conjuntos habitacionais, ocupações/favelas ou conjuntos erguidos em mutirões), que configuram experiências distintas de vivência naquele espaço socialmente construído, pareceram, a medida em que a pesquisa se desenvolveu, uma via adequada para a divisão do documentário numa série em episódios.

Como foi sua relação com os entrevistados? Havia desconfiança no início, a aproximação foi difícil?

Foi boa, na medida em que dispúnhamos do apoio, na pesquisa de personagens, de diversas pessoas com longa experiência de vida ou de contato na região.

Vocês acompanham o que aconteceu com as pessoas retratadas? Ainda tem contato com alguma?

Acompanhamos, o próprio documentário mostra isso. Temos contatos com algumas.

Debate sobre imigração | Convidados confirmam presença em São Paulo

Dia 24 de Abril 2009

19h : Debate sobre imigração

As migrações, hoje, num mundo globalizado, são ao mesmo tempo um sintoma, conseqüência e denúncia da realidade enfrentada por trabalhadores(as) pobres no mundo inteiro.

Moderadora : Bia Barbosa,  trabalhou na Editora Abril e foi editora da Agência Carta Maior, fazendo a cobertura dos processos do Fórum Social Mundial. Foi colaboradora da Revista Caros Amigos e viveu em Paris, onde trabalhou para a Unesco, Rádio França Internacional, IstoÉ, O Estado de S.Paulo e Agência Reuters. É coordenadora do Intervozes, coletivo que atua em defesa do direito humano à comunicação, e empreendedora social da Ashoka.

Mamadou M’Bodje, chefe de projeto da ASIAD – Association de Solidarité et Information pour l’Accès aux Droits des étrangers non communautaires [Associação de solidariedade e informação para o direito dos estrangeiros não europeus].

Luiz Bassegio, secretário continental do movimento Grito dos Excluídos que denuncia todas as situações de exclusão e assinala as possíveis saídas e alternativas, e organiza uma grande manifestação popular no dia 7 de setembro no Brasil e no dia 12 de outubro em toda a América.

Paulo Ylles, coordenador do Centro de apoio ao migrante (CAMI), um dos articuladores do Espaço Sem Fronteiras, uma rede que pretende estimular o diálogo e a análise das políticas migratórias na América do Sul, projetos de lei e programas a serem implementados nesses locais.

Entrevista com Luciana Burlamaqui

Como surgiu a idéia de Entre a luz e a sombra?

O documentário surgiu a partir de uma inquietação que sempre tive em querer aprofundar as temáticas sociais das histórias que contava como repórter de TV. Trabalhava em telejornais diários e procurava contextualizar as matérias que fazia. É difícil conseguir este espaço. Também não existiam programas voltados para documentários mais autorais. Resolvi dar um tempinho do jornalismo e fui trabalhar numa ONG que me encantou, o Projeto Aprendiz, onde fiquei por dois anos ensinando vídeo para jovens do ensino médio e universitário. Um dia, apareceu por lá, o grupo de rap 509-E junto com a atriz Sophia Bisilliat. Eles íam ter encontros com jovens da Febem para trocar experiências sobre o mundo do crime e a possibilidade de abandoná-lo. Surgiu a idéia de alguém documentar esses encontros. Trabalhava meio período. Como tinha uma boa câmera, uma ilha de edição em casa e procurava uma história sobre a violência urbana para documentar de forma independente, ofereci-me para fazer isso. Mas em pouco tempo percebi que a história estava além dos encontros. Acompanhei a vida deles por sete meses consecutivos e depois fiz atualizações pontuais por sete anos.

Como foram as filmagens? Desde o início você já tinha uma idéia do que queria fazer ou o filme foi tomando forma durante a colhida de depoimentos?

Eu tinha uma pergunta dentro de mim voltada para o futuro de quem havia entrado na vida do crime. Que chance essa pessoa teria de mudar sua vida depois que já estava neste caminho? Mais do que essa pergunta sentia também uma inquietação generalizada por viver em um país onde cerca de 1/3 da população – mais de 50 milhões de pessoas – é pobre, e outros 20 milhões são indigentes. Essa realidade para mim é violenta, uma violência invisível, tão forte como aquela que tira a vida das pessoas. Com essa e outras perguntas no meu interior comecei a acompanhar os personagens e a documentar as transformações que aconteciam nas vidas deles. O documentário parte de uma investigação sobre as chances de alguém sair da vida do crime e transforma-se num denso mergulho no lado sombrio e luminoso da alma humana. Deixa de ser um filme restrito a temática prisional e joga-se nas diferentes nuances do ser humano.

Como foi sua relação com os entrevistados? Havia desconfiança no início, a aproximação foi difícil?

Em nenhum momento das gravações eles me impediram de gravar qualquer situação. Sempre houve confiança dos dois lados e sempre gravei com grande intimidade. Sem essa confiança não teria conseguido chegar tão perto de suas emoções e testemunhado suas mudanças ao longo desses anos.

Até que ponto o documentarista pode ou deve se envolver com as pessoas que contam sua história?

Esta é a parte mais difícil. Ficamos íntimos, mas não somos amigos para compartilhar nossa vida. Queremos saber tudo sobre eles, mas normalmente não entregamos nada de nós. É delicado. Trabalho com sinceridade, não gosto de manipular, falo o que sinto, entrego um pouco de minha vida sim, mas até onde avalie que isso não cria vínculos fora do trabalho, até para preservar a neutralidade do próprio filme. Porém somos humanos, gostamos das pessoas, não dá para ficar completamente frio ao que você vê na sua frente. Ainda mais quando você fica muito tempo gravando a vida de alguém. Sempre estive atenta sobre o limiar desse envolvimento, mas sem ignorar meus sentimentos por eles.

De que maneira o documentário pode interferir e modificar esta realidade?

Pode interferir e modificar, atrapalhar ou ajudar. Eu procurei não interferir.

Vocês acompanham o que aconteceu com as pessoas retratadas? Ainda tem contato com alguma?

Sim. Sempre que posso procuro saber como todos estão. Falo diretamente com eles ou através de seus amigos.

De que maneira o debate e a crítica atuam na hora de se pensar e planejar um outro filme?

Ajuda muito porque você compartilha com as pessoas algo que sonhou, planejou, começou e conseguiu terminar. Tantos documentários que ficam só na nossa cabeça ou que começam e param no meio… É difícil, muito difícil viabilizar filmes. O debate e as críticas nos ajudam a perceber qual foi o efeito do que fizemos e a refletir sobre nossas escolhas para contar essas histórias. Meu objetivo sempre é comunicar conceitos, sensações. É fundamental ter esse retorno para saber como as pessoas receberam isso e até se receberam.

Quais são seus próximos projetos, em desenvolvimento ou aqueles que sonha fazer?

Tenho um outro documentário que dirigi ao longo de dois anos também sobre a violência, mas ainda não posso falar muito sobre este projeto. Pretendo trabalhar também com o tema do afeto em ficção. Em18 anos cobrindo e pesquisando sobre a violência percebo que por trás dela está à ausência ou a busca pelo afeto.Se a gente pensar no pior ser humano, se é que se pode falar em pior ou melhor ser humano, naquele que cometeu as maiores atrocidades. Mesmo nesta pessoa há uma coisa em comum com todos nós. Como ela, acordamos todos os dias buscando a mesma coisa, com o mesmo sentimento, seja ele explícito, ou inconsciente: o desejo de sermos amados. Então acredito que até para pensar em política de segurança pública em nosso país, temos que pensá-la com afeto.