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Social em Movimentos

Artigos e entrevistas

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Imigração: opção ou necessidade

O que leva uma pessoa a abandonar sua terra para ir para outro local? Trabalhar, melhores condições de vida, realização de sonhos? Essas foram algumas questões que dominaram o debate sobre imigração e migração na mostra Social em Movimentos na noite de quinta-feira, a partir dos filmes La traversée e Migrantes.

Para o moderador Giuseppe Cocco, os processos migratórios nem sempre são resultado somente da busca de melhores condições de vida, pois também podem ser motivados por uma opção de vida. O público também ficou impressionado pela viés político de La traversée, ponto que a diretora Elisabeth Leuvrey não concordava. O filme mostra o sentimento das pessoas que viajam de navio da Argélia para a França, a que sociedade eles pertencem, como se reconhecem.

Diretor de Migrantes, Beto Novaes chamou atenção para as condições degradantes do trabalho na lavoura da cana de açúcar, a que são submetidos milhares de nordestinos em busca de trabalho e renda. Mas as dificuldades de se inserir numa sociedade também são vividas na França, onde o cerco de fecha para os imigrantes ilegais. Como disse o francês Jean Eric Malabre, do Grupo de Informação e Apoio aos Imigrantes, o sistema é muitas vezes pensado pra dificultar esse acesso.

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Social em Movimentos no “Jornal do Brasil”

capa JB

materia JB

Brasília | Dia a dia #3 | Fronteiras abertas?

A noite de quarta-feira foi uma surpresa. No início da primeira sessão, havia poucas pessoas na sala. Logo a apreensão foi sendo superada, com a chegada do público, que aos poucos se juntou aos participantes do debate para acompanhar a história de imigrantes que saem do norte da África em busca de melhores condições de vida na França, como mostra La traversée.

Com o fim da primeira sessão, logo vêm as dúvidas: como será a seguinte? Terá mais público? Eles vão gostar do filme? De repente, a sala do Cine Teatro SESC Presidente Dutra fica cheia. Alunos e professores do curso de alfabetização de jovens e adultos e supletivo do SESC tomaram seus lugares e se emocionaram com a trajetória dos trabalhadores nordestinos que vão trabalhar como cortadores de cana em São Paulo. Durante os filmes, comentários e lágrimas de parte da platéia.

O debate começou com a participação de Orlando Fantazzini, consultor do Instituto Migrações e Direitos Humanos professora Dacia Ibiapina, coordenadora do departamento de audiovisual da

Universidade de Brasilia, Patricia Rangel, doutoranda em Cências Politicas, que foi repatriada da Espanha, e Adriana Telles Ribeiro, assessora do departamento consular e de comunidades brasileiras no exterior do Ministério das Relações Exteriores.

O mundo está dividido entre turistas e vagabundos”, explicou Patrícia, usando as categorias criadas por Zygmunt Bauman. Para os turistas, ou aqueles que têm condições de interagir com o mundo do capital, todas as fronteiras estão abertas, enquanto os vagabundos não contam com a mesma mobilidade. Patrícia foi repatriada após passar 50 horas no aeroporto de Madri, tendo sua entrada recusada na União Européia sem motivos objetivos, experiência que ela vai relatar com detalhes num livro que será editado ainda em 2009.

Para ela, os países cada vez mais impõem barreiras para impedir a livre circulação de pessoas, sobretudo aquelas que vão para países desenvolvidos. Adriana Telles Ribeiro, assessora do departamento consular e de comunidades brasileiras no exterior do Ministério das Relações Exteriores, relata que histórias como a de Patrícia se torna uma experiência cada vez mais comum a outros brasileiros que tentam ir para o exterior, o que pode indicar a adoção de uma política de Estado para criar barreiras para estrangeiros. Para Fantazzini, os motivos para isso são principalmente econômicos.

Atenta à emoção da platéia, professora Dácia falou das dificuldades que os nordestinos vivem, do problemas provocados pelos grandes latifúndios, pela falta de acesso à terra, condições que os forçam a buscar melhores condições de vida, mesmo que isso signifique o trabalho no corte da cana-de-açúcar. O gancho foi aproveitado pelos professores, que, emocionados, compararam os desafios que os alunos enfrentam no dia-a-dia às dificuldades dos retirantes. E um aluno arrematou o debate contando o que sente quando volta para o Piauí para visitar seus parentes.

Dia a dia #4 | “Para onde a gente vai?”

O dia começou cedo com uma visita ao Mercado Municipal de São Paulo. Em meio a barracas de frutas exóticas e tropicais, peixes típicos da costa brasileira e queijos nacionais de sabor desconhecido para eles, os convidados franceses se esbaldaram. A pinha foi a fruta preferida, a ponto de considerarem levar na mala para a França, mas a ideia foi abandonada logo em seguida. Depois de um belo sanduíche de carne seca, hora de ir para o CCBB.

On n’est pas des marques de vélo deu ao público uma ideia de como a dupla pena é cruel na França. Após cumprir sua pena preso, Bouda é expulso da França para um país que nunca reconheceu como seu. Logo em seguida, a emoção volta com Entre a luz e a sombra, sobre a trajetória de dois rappers que se conhecem no Carandiru e, graças ao trabalho de Sophie Bisilliat, conquistam reconhecimento dentro e fora da penitenciária.

Após a sessão, Jean-Pierre Thorn, diretor de On n’est pas des marques de velo, Luciana Burlamaqui e Sophie Bisilliat, diretora e personagem de Entre a luz e a sombra, participaram de um bate-papo com a platéia. Em pauta, os efeitos da criminalização da pobreza. “A dupla pena também existe no Brasil, só que aqui ela se manifesta pela prisão e pelo preconceito. Falta qualquer perspectiva para o indivíduo quando se vê diante do que recebe da sociedade”, disse Luciana.

Para Thorn, é preciso que este tema tome a sociedade, que os filmes circulem não apenas em cinemas e TVs, mas também em sessões ao ar livrem em associações, escolas e universidades, sempre como ponto de partida para um debate envolvendo toda a sociedade. Depois de toda a experiência mostrada no filme, Sophie provoca: “o que mais me deixa assustada é que a situação piora a cada dia. Para onde a gente vai?”, ela pergunta, deixando a platéia muda.

Entrevista com Paula Zanettini

Do lado de foraComo surgiu a idéia de Do lado de fora?

Durante uma pesquisa para um outro projeto (que na verdade não era nem sobre este tema, mas a respeito de condenados que continuam presos após o cumprimento da pena), eu tomei contato com este universo e fiquei realmente impressionada com a dura realidade dessas mulheres. Conversando com a Monica Marques [co-diretora], que tem muita experiência em reportagem nesta área jurídica, resolvemos desenvolver o projeto juntas e inscrevê-lo na seleção do DOCTV.

Como foram as filmagens?

Desde o início você já tinha uma idéia do que queria fazer ou o filme foi tomando forma durante a colhida de depoimentos? Tínhamos apenas um roteiro indicativo. No início pensávamos em usar outros recursos, como a dramatização de algumas situações, por exemplo, mas assim que começamos as entrevistas resolvemos abrir mão disso e concentrar a atenção basicamente nos depoimentos, que eram de uma riqueza infinitamente maior do que aquilo que tínhamos imaginado de início.

Como foi sua relação com as visitantes e suas famílias? Havia desconfiança no início, a aproximação foi difícil?

A aproximação de início foi muito difícil sim. E deixá-las a vontade para abrir o coração talvez tenha sido o nosso grande desfio. E acho importante destacar a participação da Adriana Cruz, nossa pesquisadora, que fez um trabalho incrível neste sentido. Entrevistamos mulheres muito conscientes do seu papel na sociedade e dos seus direitos, que sabem que sua dignidade não é afetada por um ato cometido por outra pessoa, no caso o filho ou marido. Um destes exemplo é a Simone, que tem um projeto maravilhoso de conscientização e apoio às famílias dos presos. Mas infelizmente a maioria não é assim. Elas em geral carregam o estigma de mulher de bandido e sentem muita vergonha. A maioria não quer nem mostrar o rosto, muito menos falar e a gente apresenta isso no filme.

Até que ponto o documentarista pode ou deve se envolver com as pessoas que contam sua história?

Essa questão do envolvimento é sem dúvida o grande dilema do documentarista.Na minha opinião a imparcialidade total é um mito. A partir do momento que uma determinada situação te toca e você resolve contar aquela história, você já está se envolvendo de alguma forma. Até porque o filme não é uma reportagem jornalística pretensamente isenta. É o seu olhar sobre alguma coisa. Por outro lado, você precisa ter um mínimo de senso crítico e distanciamento para que consiga fazer o seu trabalho. Pricipalmente porque se o seu personagem formar uma percepção de que você comprou a briga dele, ele vai começar a falar apenas aquilo que ele acha que você quer ouvir.

De que maneira o documentário pode interferir e modificar esta realidade?

É impossível não interferir. No momento que você liga uma câmera, você muda uma realidade. Uma das nossas personagens ao longo do filme começou a aparecer cada dia mais produzida , porque sabia que acompanharíamos todos o movimento dela durante a preparação para a visita. No final ela já estava popularíssima na entrada de Bangu e era chamada de “celebridade” pelas outras. Quanto a modificar a realidade, acho que o filme teve o grande mérito de fazê-las pensar sobre a situação em que se encontravam.

Vocês acompanham o que aconteceu com as mulheres com quem conversaram? Ainda tem contato com alguma?

Logo que o filme foi exibido pela primeira vez, a gente quis saber de que forma havia repercutido entre elas e inclusive fizemos algumas exibições dentro dos presídios, com a presença dos parentes e dos próprios presos. Com o tempo, como é natural, o nosso contato foi diminuindo. Mas tivemos vários relatos de mulheres que melhoraram a auto-estima após participar do filme. – De que maneira o debate e a crítica atuam na hora de se pensar e planejar um outro filme? Considero fundamentais para amadurecer o olhar. Até porque uma visão externa sempre tende a ser mais crítica e menos condescendente com algumas coisas, que você às vezes acaba deixando passar. Este foi o nosso primeiro filme, tanto meu como da Monica. Muitas das coisas que fizemos foram na base da intuição. Na hora de optar por este ou aquele caminho, a gente não tinha uma referência de experiência anterior para comparar. Por exemplo: uma das nossas opções foi colher todos os depoimentos durante as ações, em vez de gravar uma entrevista e um monte de takes de cobertura separados. A gente gostou muito do resultado, apesar de ter dado um trabalho danado para editar. E no final, isso foi apontado como a grande riqueza formal do filme, em todos os debates que fizemos.

Quais são seus próximos projetos, em desenvolvimento ou aqueles que sonham fazer?

Tenho várias idéias na cabeça, algumas no papel, mas nenhuma em desenvolvimento ainda.

Entrevista com Henri Gervaiseau

Moro na TiradentesComo surgiu a idéia de Moro na Tiradentes ?

A partir de uma pesquisa antropológica desenvolvida no local pelo antropólogo Tiaraju d´Andréia.

O nosso documentário é uma produção do núcleo audiovisual do Centro de Estudos da Metrópole (ou CEM-Audiovisual), cuja proposta é de produzir documentários capazes de, a partir do diálogo com os pesquisadores do Centro, conceber a melhor forma de retomar o caminho de uma pesquisa feita sobre certo tema em outra linguagem e forma de comunicação, compondo um discurso em parte apoiado nos resultados produzidos, em parte autônomo e, ele mesmo, capaz de gerar dados novos e de oferecer outros ângulos de percepção da experiência não revelados pelos indicadores sociais ou pela pesquisa acadêmica.

Moro na Tiradentes explora diferentes formas de abordagem da experiência de morar em um dos maiores conjuntos habitacionais brasileiros, situado em Cidade Tiradentes, um sub-distrito pobre e segregado no extremo leste da cidade de São Paulo.

Como nossas outras produções, essa também tem caráter de pesquisa de linguagem e de busca de diálogo original com as pesquisas do CEM -de cunho antropológico e sociológico-, em curso na região. Cabe ressaltar que neste caso, a realização do filme interagiu de forma mais direta, do que nas experiências anteriores, com o próprio andamento da pesquisa de Tiarajú Pablo d´Andrea

Esse é o primeiro filme de uma trilogia que preparamos sobre Cidade Tiradentes tendo como foco central à experiência da moradia, cada qual com um ângulo de percepção distinto face à experiência social em pauta. O segundo, já em produção, explora diferentes formas da experiência de se preparar para morar em Cidade Tiradentes. Experiência vivida pelos integrantes do mutirão autogerido Paulo Freire, que está finalizando a construção de um prédio no bairro, onde 100 famílias de mutirantes irão morar, entre o final de 2008 e o final de 2009. O terceiro explora diferentes formas da experiência de morar em favelas e invasões em Cidade Tiradentes, ou seja, na maior parte das vezes, em loteamentos irregulares e ilegais.

Pareceu-me fundamental poder aprofundar a exploração de um único território no curso de um período de tempo extenso, não apenas para propiciar uma maior aproximação dos personagens e dos seus contextos de vida, mas ainda, sempre que possível, para poder observar a evolução das suas trajetórias existenciais, em diferentes momentos a serem registrados.

A escolha de Cidade Tiradentes foi determinada, em ultima instância, por um interesse em aproximar-se de uma experiência urbana diferenciada no quadro das metrópoles brasileiras, no entendimento comum do que seja viver na periferia. Se excetuarmos o campo acadêmico, particularmente paulista, em que a heterogeneidade das situações de pobreza tem sido, de modo recorrente, objeto de estudos e debate, associa-se ainda, de modo freqüente, no Brasil, pobreza às favelas.

Neste contexto, o bairro de Cidade Tiradentes configura, como bem salientou Gilberto Stam, ao mesmo tempo uma exceção e um enigma. Exceção porque é um bairro quase que totalmente planejado, no inicio, pelo poder publico; e enigma porque é uma das áreas menos conhecidas de São Paulo, apesar do estigma que, erroneamente, a caracteriza como uma das mais violentas da periferia. Este bairro foi planejado, no final dos anos 70, para abrigar um dos maiores complexos habitacionais da América Latina, quando este modelo de cidade dormitório sem infra-estrutura urbana adequada, já havia sido condenado internacionalmente. Cidade Tiradentes atraiu, a partir da década de 80, milhares de pessoas que, atrás do sonho da casa própria, aceitaram se mudar para uma área distante do município de São Paulo, situada a trinta e cinco quilômetros do centro da cidade.

A questão da moradia foi escolhida como tema central dessa série de documentários por um conjunto de razões. Como a própria criação do bairro pelo poder público correspondeu a uma tentativa de resposta – resposta limitada pelas circunstâncias, ideologias, modelos em voga etc. – ao déficit de moradia na cidade de São Paulo, sabíamos de saída que este aspecto seria central. Era também um dos aspectos fundamentais da pesquisa do Tiaraju d´Andréia, de modo que – desde os relatórios do pesquisador – nos acercamos desta temática quase naturalmente. As diferentes modalidades do “morar” na Cidade Tiradentes (em conjuntos habitacionais, ocupações/favelas ou conjuntos erguidos em mutirões), que configuram experiências distintas de vivência naquele espaço socialmente construído, pareceram, a medida em que a pesquisa se desenvolveu, uma via adequada para a divisão do documentário numa série em episódios.

Como foi sua relação com os entrevistados? Havia desconfiança no início, a aproximação foi difícil?

Foi boa, na medida em que dispúnhamos do apoio, na pesquisa de personagens, de diversas pessoas com longa experiência de vida ou de contato na região.

Vocês acompanham o que aconteceu com as pessoas retratadas? Ainda tem contato com alguma?

Acompanhamos, o próprio documentário mostra isso. Temos contatos com algumas.

Entrevista com Luciana Burlamaqui

Como surgiu a idéia de Entre a luz e a sombra?

O documentário surgiu a partir de uma inquietação que sempre tive em querer aprofundar as temáticas sociais das histórias que contava como repórter de TV. Trabalhava em telejornais diários e procurava contextualizar as matérias que fazia. É difícil conseguir este espaço. Também não existiam programas voltados para documentários mais autorais. Resolvi dar um tempinho do jornalismo e fui trabalhar numa ONG que me encantou, o Projeto Aprendiz, onde fiquei por dois anos ensinando vídeo para jovens do ensino médio e universitário. Um dia, apareceu por lá, o grupo de rap 509-E junto com a atriz Sophia Bisilliat. Eles íam ter encontros com jovens da Febem para trocar experiências sobre o mundo do crime e a possibilidade de abandoná-lo. Surgiu a idéia de alguém documentar esses encontros. Trabalhava meio período. Como tinha uma boa câmera, uma ilha de edição em casa e procurava uma história sobre a violência urbana para documentar de forma independente, ofereci-me para fazer isso. Mas em pouco tempo percebi que a história estava além dos encontros. Acompanhei a vida deles por sete meses consecutivos e depois fiz atualizações pontuais por sete anos.

Como foram as filmagens? Desde o início você já tinha uma idéia do que queria fazer ou o filme foi tomando forma durante a colhida de depoimentos?

Eu tinha uma pergunta dentro de mim voltada para o futuro de quem havia entrado na vida do crime. Que chance essa pessoa teria de mudar sua vida depois que já estava neste caminho? Mais do que essa pergunta sentia também uma inquietação generalizada por viver em um país onde cerca de 1/3 da população – mais de 50 milhões de pessoas – é pobre, e outros 20 milhões são indigentes. Essa realidade para mim é violenta, uma violência invisível, tão forte como aquela que tira a vida das pessoas. Com essa e outras perguntas no meu interior comecei a acompanhar os personagens e a documentar as transformações que aconteciam nas vidas deles. O documentário parte de uma investigação sobre as chances de alguém sair da vida do crime e transforma-se num denso mergulho no lado sombrio e luminoso da alma humana. Deixa de ser um filme restrito a temática prisional e joga-se nas diferentes nuances do ser humano.

Como foi sua relação com os entrevistados? Havia desconfiança no início, a aproximação foi difícil?

Em nenhum momento das gravações eles me impediram de gravar qualquer situação. Sempre houve confiança dos dois lados e sempre gravei com grande intimidade. Sem essa confiança não teria conseguido chegar tão perto de suas emoções e testemunhado suas mudanças ao longo desses anos.

Até que ponto o documentarista pode ou deve se envolver com as pessoas que contam sua história?

Esta é a parte mais difícil. Ficamos íntimos, mas não somos amigos para compartilhar nossa vida. Queremos saber tudo sobre eles, mas normalmente não entregamos nada de nós. É delicado. Trabalho com sinceridade, não gosto de manipular, falo o que sinto, entrego um pouco de minha vida sim, mas até onde avalie que isso não cria vínculos fora do trabalho, até para preservar a neutralidade do próprio filme. Porém somos humanos, gostamos das pessoas, não dá para ficar completamente frio ao que você vê na sua frente. Ainda mais quando você fica muito tempo gravando a vida de alguém. Sempre estive atenta sobre o limiar desse envolvimento, mas sem ignorar meus sentimentos por eles.

De que maneira o documentário pode interferir e modificar esta realidade?

Pode interferir e modificar, atrapalhar ou ajudar. Eu procurei não interferir.

Vocês acompanham o que aconteceu com as pessoas retratadas? Ainda tem contato com alguma?

Sim. Sempre que posso procuro saber como todos estão. Falo diretamente com eles ou através de seus amigos.

De que maneira o debate e a crítica atuam na hora de se pensar e planejar um outro filme?

Ajuda muito porque você compartilha com as pessoas algo que sonhou, planejou, começou e conseguiu terminar. Tantos documentários que ficam só na nossa cabeça ou que começam e param no meio… É difícil, muito difícil viabilizar filmes. O debate e as críticas nos ajudam a perceber qual foi o efeito do que fizemos e a refletir sobre nossas escolhas para contar essas histórias. Meu objetivo sempre é comunicar conceitos, sensações. É fundamental ter esse retorno para saber como as pessoas receberam isso e até se receberam.

Quais são seus próximos projetos, em desenvolvimento ou aqueles que sonha fazer?

Tenho um outro documentário que dirigi ao longo de dois anos também sobre a violência, mas ainda não posso falar muito sobre este projeto. Pretendo trabalhar também com o tema do afeto em ficção. Em18 anos cobrindo e pesquisando sobre a violência percebo que por trás dela está à ausência ou a busca pelo afeto.Se a gente pensar no pior ser humano, se é que se pode falar em pior ou melhor ser humano, naquele que cometeu as maiores atrocidades. Mesmo nesta pessoa há uma coisa em comum com todos nós. Como ela, acordamos todos os dias buscando a mesma coisa, com o mesmo sentimento, seja ele explícito, ou inconsciente: o desejo de sermos amados. Então acredito que até para pensar em política de segurança pública em nosso país, temos que pensá-la com afeto.