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Artigos e entrevistas

Entrevista com Paula Zanettini

Do lado de foraComo surgiu a idéia de Do lado de fora?

Durante uma pesquisa para um outro projeto (que na verdade não era nem sobre este tema, mas a respeito de condenados que continuam presos após o cumprimento da pena), eu tomei contato com este universo e fiquei realmente impressionada com a dura realidade dessas mulheres. Conversando com a Monica Marques [co-diretora], que tem muita experiência em reportagem nesta área jurídica, resolvemos desenvolver o projeto juntas e inscrevê-lo na seleção do DOCTV.

Como foram as filmagens?

Desde o início você já tinha uma idéia do que queria fazer ou o filme foi tomando forma durante a colhida de depoimentos? Tínhamos apenas um roteiro indicativo. No início pensávamos em usar outros recursos, como a dramatização de algumas situações, por exemplo, mas assim que começamos as entrevistas resolvemos abrir mão disso e concentrar a atenção basicamente nos depoimentos, que eram de uma riqueza infinitamente maior do que aquilo que tínhamos imaginado de início.

Como foi sua relação com as visitantes e suas famílias? Havia desconfiança no início, a aproximação foi difícil?

A aproximação de início foi muito difícil sim. E deixá-las a vontade para abrir o coração talvez tenha sido o nosso grande desfio. E acho importante destacar a participação da Adriana Cruz, nossa pesquisadora, que fez um trabalho incrível neste sentido. Entrevistamos mulheres muito conscientes do seu papel na sociedade e dos seus direitos, que sabem que sua dignidade não é afetada por um ato cometido por outra pessoa, no caso o filho ou marido. Um destes exemplo é a Simone, que tem um projeto maravilhoso de conscientização e apoio às famílias dos presos. Mas infelizmente a maioria não é assim. Elas em geral carregam o estigma de mulher de bandido e sentem muita vergonha. A maioria não quer nem mostrar o rosto, muito menos falar e a gente apresenta isso no filme.

Até que ponto o documentarista pode ou deve se envolver com as pessoas que contam sua história?

Essa questão do envolvimento é sem dúvida o grande dilema do documentarista.Na minha opinião a imparcialidade total é um mito. A partir do momento que uma determinada situação te toca e você resolve contar aquela história, você já está se envolvendo de alguma forma. Até porque o filme não é uma reportagem jornalística pretensamente isenta. É o seu olhar sobre alguma coisa. Por outro lado, você precisa ter um mínimo de senso crítico e distanciamento para que consiga fazer o seu trabalho. Pricipalmente porque se o seu personagem formar uma percepção de que você comprou a briga dele, ele vai começar a falar apenas aquilo que ele acha que você quer ouvir.

De que maneira o documentário pode interferir e modificar esta realidade?

É impossível não interferir. No momento que você liga uma câmera, você muda uma realidade. Uma das nossas personagens ao longo do filme começou a aparecer cada dia mais produzida , porque sabia que acompanharíamos todos o movimento dela durante a preparação para a visita. No final ela já estava popularíssima na entrada de Bangu e era chamada de “celebridade” pelas outras. Quanto a modificar a realidade, acho que o filme teve o grande mérito de fazê-las pensar sobre a situação em que se encontravam.

Vocês acompanham o que aconteceu com as mulheres com quem conversaram? Ainda tem contato com alguma?

Logo que o filme foi exibido pela primeira vez, a gente quis saber de que forma havia repercutido entre elas e inclusive fizemos algumas exibições dentro dos presídios, com a presença dos parentes e dos próprios presos. Com o tempo, como é natural, o nosso contato foi diminuindo. Mas tivemos vários relatos de mulheres que melhoraram a auto-estima após participar do filme. – De que maneira o debate e a crítica atuam na hora de se pensar e planejar um outro filme? Considero fundamentais para amadurecer o olhar. Até porque uma visão externa sempre tende a ser mais crítica e menos condescendente com algumas coisas, que você às vezes acaba deixando passar. Este foi o nosso primeiro filme, tanto meu como da Monica. Muitas das coisas que fizemos foram na base da intuição. Na hora de optar por este ou aquele caminho, a gente não tinha uma referência de experiência anterior para comparar. Por exemplo: uma das nossas opções foi colher todos os depoimentos durante as ações, em vez de gravar uma entrevista e um monte de takes de cobertura separados. A gente gostou muito do resultado, apesar de ter dado um trabalho danado para editar. E no final, isso foi apontado como a grande riqueza formal do filme, em todos os debates que fizemos.

Quais são seus próximos projetos, em desenvolvimento ou aqueles que sonham fazer?

Tenho várias idéias na cabeça, algumas no papel, mas nenhuma em desenvolvimento ainda.

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