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Artigos e entrevistas

Entrevista com Luciana Burlamaqui

Como surgiu a idéia de Entre a luz e a sombra?

O documentário surgiu a partir de uma inquietação que sempre tive em querer aprofundar as temáticas sociais das histórias que contava como repórter de TV. Trabalhava em telejornais diários e procurava contextualizar as matérias que fazia. É difícil conseguir este espaço. Também não existiam programas voltados para documentários mais autorais. Resolvi dar um tempinho do jornalismo e fui trabalhar numa ONG que me encantou, o Projeto Aprendiz, onde fiquei por dois anos ensinando vídeo para jovens do ensino médio e universitário. Um dia, apareceu por lá, o grupo de rap 509-E junto com a atriz Sophia Bisilliat. Eles íam ter encontros com jovens da Febem para trocar experiências sobre o mundo do crime e a possibilidade de abandoná-lo. Surgiu a idéia de alguém documentar esses encontros. Trabalhava meio período. Como tinha uma boa câmera, uma ilha de edição em casa e procurava uma história sobre a violência urbana para documentar de forma independente, ofereci-me para fazer isso. Mas em pouco tempo percebi que a história estava além dos encontros. Acompanhei a vida deles por sete meses consecutivos e depois fiz atualizações pontuais por sete anos.

Como foram as filmagens? Desde o início você já tinha uma idéia do que queria fazer ou o filme foi tomando forma durante a colhida de depoimentos?

Eu tinha uma pergunta dentro de mim voltada para o futuro de quem havia entrado na vida do crime. Que chance essa pessoa teria de mudar sua vida depois que já estava neste caminho? Mais do que essa pergunta sentia também uma inquietação generalizada por viver em um país onde cerca de 1/3 da população – mais de 50 milhões de pessoas – é pobre, e outros 20 milhões são indigentes. Essa realidade para mim é violenta, uma violência invisível, tão forte como aquela que tira a vida das pessoas. Com essa e outras perguntas no meu interior comecei a acompanhar os personagens e a documentar as transformações que aconteciam nas vidas deles. O documentário parte de uma investigação sobre as chances de alguém sair da vida do crime e transforma-se num denso mergulho no lado sombrio e luminoso da alma humana. Deixa de ser um filme restrito a temática prisional e joga-se nas diferentes nuances do ser humano.

Como foi sua relação com os entrevistados? Havia desconfiança no início, a aproximação foi difícil?

Em nenhum momento das gravações eles me impediram de gravar qualquer situação. Sempre houve confiança dos dois lados e sempre gravei com grande intimidade. Sem essa confiança não teria conseguido chegar tão perto de suas emoções e testemunhado suas mudanças ao longo desses anos.

Até que ponto o documentarista pode ou deve se envolver com as pessoas que contam sua história?

Esta é a parte mais difícil. Ficamos íntimos, mas não somos amigos para compartilhar nossa vida. Queremos saber tudo sobre eles, mas normalmente não entregamos nada de nós. É delicado. Trabalho com sinceridade, não gosto de manipular, falo o que sinto, entrego um pouco de minha vida sim, mas até onde avalie que isso não cria vínculos fora do trabalho, até para preservar a neutralidade do próprio filme. Porém somos humanos, gostamos das pessoas, não dá para ficar completamente frio ao que você vê na sua frente. Ainda mais quando você fica muito tempo gravando a vida de alguém. Sempre estive atenta sobre o limiar desse envolvimento, mas sem ignorar meus sentimentos por eles.

De que maneira o documentário pode interferir e modificar esta realidade?

Pode interferir e modificar, atrapalhar ou ajudar. Eu procurei não interferir.

Vocês acompanham o que aconteceu com as pessoas retratadas? Ainda tem contato com alguma?

Sim. Sempre que posso procuro saber como todos estão. Falo diretamente com eles ou através de seus amigos.

De que maneira o debate e a crítica atuam na hora de se pensar e planejar um outro filme?

Ajuda muito porque você compartilha com as pessoas algo que sonhou, planejou, começou e conseguiu terminar. Tantos documentários que ficam só na nossa cabeça ou que começam e param no meio… É difícil, muito difícil viabilizar filmes. O debate e as críticas nos ajudam a perceber qual foi o efeito do que fizemos e a refletir sobre nossas escolhas para contar essas histórias. Meu objetivo sempre é comunicar conceitos, sensações. É fundamental ter esse retorno para saber como as pessoas receberam isso e até se receberam.

Quais são seus próximos projetos, em desenvolvimento ou aqueles que sonha fazer?

Tenho um outro documentário que dirigi ao longo de dois anos também sobre a violência, mas ainda não posso falar muito sobre este projeto. Pretendo trabalhar também com o tema do afeto em ficção. Em18 anos cobrindo e pesquisando sobre a violência percebo que por trás dela está à ausência ou a busca pelo afeto.Se a gente pensar no pior ser humano, se é que se pode falar em pior ou melhor ser humano, naquele que cometeu as maiores atrocidades. Mesmo nesta pessoa há uma coisa em comum com todos nós. Como ela, acordamos todos os dias buscando a mesma coisa, com o mesmo sentimento, seja ele explícito, ou inconsciente: o desejo de sermos amados. Então acredito que até para pensar em política de segurança pública em nosso país, temos que pensá-la com afeto.


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